Caprichoso encerra sua participação no Festival com “Kaa-eté - Retomada pela Vida”

Em um dos momentos marcantes da terceira noite, o Boi Caprichoso retoma a vida e a natureza, mostrando-se grande expoente em defesa da Amazônia através da Rainha do Folclore Cleise Simas

Caprichoso encerra sua participação no Festival com “Kaa-eté - Retomada pela Vida” Notícia do dia 30/06/2025

Duas citações nortearam a última noite do Caprichoso: “Não somos inferno verde, novo éden, vazio demográfico. Somos consciência viva parida do ventre-cabaça da Mãe Terra.” afirma Gilvana Borari. ele sabia bem que, em nome da Amazônia de Pé, valia a pena abraçar-se coletivamente às árvores, para que elas não fossem derrubadas. Ecologia sem luta de classes é jardinagem, conscientiza-nos ele.

 

Contam as anciãs que Waurãga é a senhora, deusa e guardiã da floresta, como dito na toada do momento, “mãe de todas as mães desta mata”. Quando nosso território está ameaçado, corrompido e violado por madeireiros, garimpeiros e grileiros, seu olhar de fúria se lança contra eles para fazer justiça. Ela vem das matas, sempre que ouve um tiro disparado pelo caçador, sentindo de longe o cheiro dos saqueadores, seres humanos da cobiça.

 

Na Lenda Amazônica do Caprichoso, Waurãga desperta como a Cunhã-Poranga Marciele Munduruku e convoca os Waurá-Kãkãnemas, seres encantados, para a luta. Sempre que houver um tiro, um invasor ambicioso, ela estará lá para defender a Amazônia: a invencível Waurãga, a mãe das matas, a convocar Kãkãnemas para retomar e manter o verde intocado. É tempo de retomada dos saberes e conservação da floresta de pé! ! A carnificina do kariwa, para ela, não tem anistia.

 

Mantendo o enfoque na conservação da Floresta em Pé, o estandarte do Caprichoso  conduzido por Marcela Marialva homenageou Chico Mendes, e, com a presença de Ângela, filha de Chico, a figura típica regional homenageou o seringueiro como herói das matas retomando a história de homens e mulheres nordestinos e nordestinas, que se misturaram aos povos originários criando esse tipo humano específico da Amazônia.

 

As culturas nordestinas vieram na bagagem dos irmãos Cid, dentre eles, Roque Cid, o criador do Boi Caprichoso. Ele foi um ser humano que conseguiu o almejado sucesso que poucos tiveram também. Ou seja, falar dos seringueiros e das seringueiras é retomar a própria história azul e branca. Em tempos de cobiça e ganância, são muitos os nomes que partiram para defender a Amazônia. Nomes que se tornaram mártires, tais como Dorothy Stang, Zé Cláudio, Maria do Espírito Santo, Wilson Pinheiro, Ivair Higino e o além do próprio Chico Mendes, assassinado em 1988.

 

Yacuruna, “o senhor das águas” habita os fundos de lagos e rios, com aparência híbrida entre ser humano e os habitantes encantados do mundo subaquático. Tudo isto é para defender as águas, seu hábitat. Sem ele, não haveria equilíbrio ambiental, por isso, os ribeirinhos da Amazônia o tratam de modo muito respeitoso, o que foi uma herança aprendida junto aos povos indígenas e repassada de geração em geração.

 

Quem desobedece Yacuruna é punido, tragado para o fundo das águas e nunca mais visto. Yacuruna defende os mananciais do garimpo, do mercúrio, do tráfico ilegal de peixes ou dejetos espalhados pelos transatlânticos que poluem as águas, sem o mínimo respeito pelos locais por onde navegam, para nós, sagradas estradas aquáticas. Mais uma vez, por meio das águas, o Boi Caprichoso retoma a vida e a natureza, mostrando-se grande expoente em defesa da Amazônia através da Rainha do Folclore Cleise Simas

 

O ritual indígena encenado na arena do bumbódromo pelo poder da cura do xamanismo Yawanawá. O item quatro do Caprichoso foi narrado por um nativo que passou pelo rito de cura. Em noite de febre, Thiago Yawanawá não precisou chamar por ninguém. O Grande Rumeya (como são chamados os pajés) sabem quando alguém de seu povo está doente, porque isto é revelado em sonhos, o que não impede, dependendo da enfermidade, que o processo ocorra em meio a gritos de quem sente dor. Também são chamados de “povo da queixada” (yawa= queixada; nawa=povo) vive à margem do Rio Gregório, no Acre, sendo a primeira terra demarcada no Acre, com a retomada de seu território ancestral.

 

Para apaziguar o sofrimento do enfermo, ele provoca o mariri, ou seja, o ajuntamento de pessoas em círculos para abrir a cerimônia e se fortalecer. Assim, o xamã pode transcender e ver o que os olhos dos mortais comuns não conseguem: em transe, é o momento de tratar o convalescente, porque agora, em rodas, a cantoria combinar-se-á com a sabedoria do Rumeya. De mãos dadas, todos assistem ao pajé realizar o sagrado Shuanka, valendo-se de cuias com raspas de plantas, veneno da rã kambô, rapé, ayahuasca, caiçuma, tabaco, tudo isto em aliança com criaturas espirituais.

 

“Eu me lembro de ter alucinações, porque minha febre estava muito alta. Quando acordei, os olhos dele me observavam e eu sentia a febre indo embora. Ele puxava algo pela boca e jogava ao vento. No outro dia, ele me contou algumas coisas, entre elas, das feras que os ajudavam no processo e cantou uma música que ele me contou ainda fazer parte do rito”. É a retomada dos conhecimentos tradicionais, a “medicina da floresta” pelo grande Rumeya.

 

Fotos: Alex Pazuello | Arthur Castro | Mauro Neto / Secom

 

Tags: