Caprichoso abre terceira noite de Festival com 'Norte Brasil – Chão de Bravos'

O Boi Caprichoso abriu a terceira e última apresentação no 59º Festival Folclórico de Parintins mostrando a ressignificação do Festival

Caprichoso abre terceira noite de Festival com 'Norte Brasil – Chão de Bravos' Notícia do dia 29/06/2026

Na noite em que o Caprichoso estendeu seu canto para além de Parintins e da Amazônia, o bumbá mostrou a identidade cultural do povo brasileiro que escolheu ressignificar a sua história.

 

Ultrapassando a barreira do entretenimento, o Boi-Bumbá Caprichoso abriu sua terceira e última apresentação no 59º Festival Folclórico de Parintins mostrando a ressignificação do Festival como um espaço de afirmação cultural, memória coletiva e luta contra os processos de invisibilização de diversos grupos que sustentam a base da cultura popular nortista. Neste contexto, o Caprichoso não nega os sofrimentos históricos, mas o ressignifica por meio da arte, música, dança e coletividade.

 

Macacos Gigantes

Entre as antigas histórias que ecoam na memória dos povos da Ilha do Bananal, localizada entre os rios Araguaia e Javaés – território que marca a divisa entre os estados de Mato Grosso e Tocantins (pertecendo ao estado de Tocantins), um mistério sombrio pairava sobre a Ilha, assombrando a população.

 

Muitos homens valentes e aguerridos adentravam nas matas sombrias e apenas alguns vestígios de seus corpos eram encontrados, espalhando medo e pavor. Os causadores da desgraça eram macacos gigantescos que se alimentavam de carne humana.

 

Foi então que um jovem guerreiro chamado Maricá adentrou no silêncio das matas fechadas com a ajuda encantada de duas mulheres da floresta. A cobra e o sapo, guardiãs de antigos poderes. E, com flechas fortalecidas pela magia da mata e guiado por sua inteligência, Maricá avançou na mata e matou os terríveis macacos e a Ilha do bananal pode respirar em paz com a chegada da Cunhã-Poranga Marciele Albuquerque

 

A vida Xinguana precisa viver

A celebração indígena do Caprichoso, ao comando do Pajé Erick Beltrão e da cunhã-poranga Marciele Albuquerque, teve como norte os povos do Xingu, afetados pela construção da hidroelétrica de Belo Monte, próximo a cidade de Altamira no Pará. A toada A Mística Xinguana, de Paulinho Du Sagrado, foi executada para a coreografia de resistência dos povos Indígenas do Caprichoso.

 

Filhas de Mani

Na Amazônia, a mandioca não é apenas uma raiz cultivada. Ela ocupa lugar central na construção das identidades culturais, dos modos de vida e das relações comunitárias Mantendo a propagação cultural do país, o Caprichoso apresentou a Figura Típica das Farinheiras, personagem profundamente enraizado na cultura amazônica, cujo cultivo mobiliza comunidades inteiras e de forma cooperativa.

 

Neste contexto, a roça se torna espaço de encontro e resistência de agricultura familiar contra a expansão da agropecuária no país e, em especial, na Amazônia. A Porta-Estandarte Marcela Marialva surge na arena representando a Filha de Mani, a indígena de pele clara que deu origem a lenda da mandioca

 

Mais que uma encenação folclórica, o Auto do Boi revela o encontro das matrizes que constituem a identidade cultural brasileira. Na arena, o Auto revive a história de Pai Francisco e Mãe Catirina - cantados em forma de verso por Edilson Santana e Paula Gomes.

 

Para satisfazer o desejo de sua esposa gestante, Pai Francisco mata o boi mais querido da fazenda e retira sua língua para alimentá-la, entristecendo o Amo do Boi, a sinhazinha, os vaqueiros e de todos que o amavam.

 

Para resolver o transtorno que a morte do boi amado trouxe, chamaram um curandeiro da floresta para devolver a vida ao boi e, assim, após a sua ressurreição restaurou-se a harmonia coletiva e celebra-se a força da vida sobre as adversidades. Todas as figuras ligadas ao auto do boi (Amo, Sinhazinha e Vaqueirada) surgiram na alegoria do artista Brás Lira e equipe.

 

Iniciação Xamânica

Na cosmologia do Povo Xikrin, que vive na região sudeste do estado Pará, próximo à Serra dos Carajás e dos rios Araguaia e Itacaiúnas, a formação do xamã representa uma jornada de transformação e acesso ao conhecimento sobrenatural, onde adquire a capacidade de percorrer diferentes territórios sobrenaturais que compõe a geografia mítica Xikrin. Como mediador entre a sociedade e o mundo sobrenatural, o Pajé Erick Beltrão assume a responsabilidade de estabelecer relações com os donos espirituais dos territórios sagrados.

 

Destaques

Um dos módulos principais da Lenda Amazônica da noite quebrou no início da apresentação do item. Tentando contornar o problema, o apresentador Edmundo Oran anunciou que o Macaco foi abatido por uma flechada certeira.

 

A Rainha do Folclore surgiu em um módulo içado representando a Deusa da Cultura Popular, iniciando sua apresentação usando saia de carimbó, dança típica do estado do Pará, em uma referência ao Povo do Norte que foi tocado na toada de mesmo nome.

 

A Sinhazinha da Fazenda Valentina Cid tocou no violino a introdução da própria toada de evolução - Leveza de Sinhá, de André Anzoategui, Gabriel Moraes e Guto Kawakami.

 

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Fotos: Mauro Neto e Tiago Correa/Secom | Euzivaldo Queiroz/Secretaria de Estado de Educação e Desporto Escolar

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