Da Paraíba à Amazônia: Ronaldo Barbosa transforma toadas em legado e se torna cidadão amazonense

Natural de Campina Grande, compositor construiu em Parintins uma trajetória que atravessa gerações e ajudou a transformar a linguagem musical do Festival Folclórico

Da Paraíba à Amazônia: Ronaldo Barbosa transforma toadas em legado e se torna cidadão amazonense Foto: Miguel Almeida/Aleam Notícia do dia 20/08/2026

A Amazônia que Ronaldo Barbosa escolheu para viver também escolheu Ronaldo Barbosa como um de seus filhos.

 

Natural de Campina Grande, na Paraíba, o compositor que dedicou mais de três décadas à construção musical do Boi-Bumbá Caprichoso teve sua contribuição reconhecida oficialmente pelo Estado com a concessão do Título de Cidadão do Amazonas.

 

A homenagem, proposta pela deputada estadual Alessandra Campêlo, foi aprovada pela Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam) e transformada na Lei nº 8.339/2026. O reconhecimento coloca no papel uma relação que Ronaldo Barbosa construiu durante décadas por meio da música, da poesia e de sua ligação com Parintins.

 

A justificativa apresentada à Assembleia Legislativa destaca uma trajetória iniciada no Festival de Parintins no começo dos anos 1990 e uma produção que chegou a aproximadamente 125 toadas. Mais do que a quantidade, porém, está a influência que essas composições exerceram sobre a linguagem musical e artística do espetáculo.

 

“Amor com amor se paga e isso é verdade, Ronaldo. Você escolheu o Amazonas para viver e amar. E o título de cidadão é a maior honraria do Estado. Hoje é a formalização de um amor que o povo te devolve. Você é muito grande e talvez nem tenha noção. Parabéns e agora és caboquinho oficialmente”, destacou Alessandra Campêlo.

 

No final da década de 1970, Ronaldo chegou à Amazônia e fixou residência em Parintins, onde trabalhou na Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai). A convivência com povos originários e as viagens por aldeias do Norte do país se tornaram elementos importantes de sua produção artística.

 

“Quero agradecer à Alessandra Campêlo por abrir as portas desse plenário para dar voz ao lirismo, à poesia e à cultura, porque um povo sem cultura é um povo sem identidade, que não tem história, não tem memória, não tem origem, não tem crença. Digo que um povo sem cultura é uma árvore sem raiz e Alessandra, você com essa propositura, não traz o Ronaldo Barbosa só aqui para dentro, traz a nação azul e branca toda. Traz uma família inteira para cá”, disse o novo Cidadão do Amazonas.

 

Ronaldo ajudou a transformar a toada em narrativa

Floresta, rios, povos indígenas, ancestralidade, mitos e personagens do cotidiano amazônico passaram a ocupar espaço privilegiado em suas composições. A experiência profissional junto aos povos indígenas também forneceu elementos que seriam levados posteriormente para dentro da arena do Bumbódromo.

 

Obras como “Saga de um Canoeiro” ajudam a compreender essa contribuição. O homem que conduz sua pequena embarcação pelos rios da região deixa de ser apenas uma figura cotidiana e passa a representar, em versos e melodia, parte da própria identidade amazônica.

 

Ao longo dos anos, Ronaldo Barbosa também assinou composições que abordaram cosmologias, lutas e a realidade dos povos originários, ajudando a ampliar dentro do Festival uma discussão que ultrapassava a disputa entre Garantido e Caprichoso.

 

O reconhecimento institucional chegou também pela cidade onde grande parte dessa história foi construída. Em agosto de 2026, Ronaldo recebeu da Câmara Municipal o Título de Cidadão Parintinense, somando mais uma homenagem à trajetória construída na Ilha Tupinambarana.

 

As duas cidadanias carregam um simbolismo especial

Ronaldo Barbosa nasceu paraibano. Tornou-se amazonense pela relação que construiu com esta terra e parintinense pela contribuição deixada à cultura de uma cidade que fez do boi-bumbá uma das maiores manifestações populares do Brasil.

 

Mais do que compositor de sucessos do Caprichoso, Ronaldo ajudou a construir uma maneira de cantar a Amazônia.

 

E talvez esteja justamente aí a dimensão de seu legado: décadas depois de chegar a esta região, o homem que adotou a Amazônia como inspiração passou a ser reconhecido oficialmente como filho da terra que tantas vezes transformou em poesia.

 

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