Notícia do dia 28/06/2026
Na segunda noite do 59º Festival Folclórico de Parintins, o Boi-Bumbá Caprichoso cantou o chão amazônico, suas gentes, lutas e resistência dos povos originários da região, narrando não apenas uma disputa pela posse da terra, mas pela permanência de formas distintas de compreender e habitar o mundo.
O apresentador Edmundo iniciou a apresentação questionando sobre "quantos mais precisariam morrer para manter a floresta em pé?!"
Na sequência anunciou o levantador de toadas Patrick Araújo e a Marujada de Guerra.
Após a execução da toada "É Festa de Novo", de Adriano Aguiar, o Boi-Bumbá Caprichoso chegou à arena após ser içado por um módulo em guindaste.
Guardiões da Vida
Iniciando os momentos alegóricos, o Caprichoso trouxe o Curupira para concorrer ao item 17 (Lenda Amazônica). Considerado um dos encantados da Floresta mais conhecidos e reconhecido como Espírito do Pensamento da Mata, ele habita simbolicamente o coração das florestas mais densas, observando os movimentos humanos e zelando pelo equilíbrio da vida.
A Cunhã-Poranga Marciele Munduruku surge na alegoria mostrando, assim, que o Curupira é a voz encantada da Floresta que ensina, alerta e resiste, reafirmando que não existe Amazônia sem respeito aos povos e aos territórios que a mantém viva. O trabalho alegórico do artista Roberto Reis – que sofreu um incidente no traslado no início da semana – abriu o espetáculo azul e branco e empolgou a galera do Caprichoso do começo ao fim da apresentação.

Mantendo a linha de defesa da Amazônia não apenas como geografia, mas como Chão Vivo, habitado humanos e não-humanos, onde a brincadeira ganha dimensão política e cultural ao reivindicar justiça para aqueles que morreram em defesa da floresta, dos rios e dos territórios tradicionais.
O Boi Caprichoso apresentou como Figura Típica Regional o Pescador e a Pescadora da Amazônia numa narrativa onde o pescador é demonstrado como imagem viva da Amazônia e que a protege através da sustentabilidade em busca do alimento sagrado de cada dia.
A Rainha do Folclore Cleise Simas surge representando a deusa dos encantados sendo conduzida por um boto cor-de-rosa. Em uma inversão da lenda do boto, ela encanta os homens-botos da região.
Entre uma apresentação e outra, o Amo do Boi Caetano Medeiros prestou homenagem Ronaldo Barbosa - autor de ambas toadas apresentadas (Trilha do Curupira e Cardume de Estrelas).
Festa do Povo da Floresta
Em sua terceira alegoria, a Exaltação Cultural do Caprichoso celebrou a Amazônia Humana afro indígena. Ao som da toada Povo do Norte, o Touro Negro colocou em evidência a capacidade que os povos amazônicos têm de transformar memória, identidade e resistência em festa.
Citações ao carimbo, ao cacuriá do Maranhão, o Samba de Couro de Rondônia, o Marabaixo amapaense, o Congo o Tocantins e o Parixará de Roraima foram homenageados na toada Povo do Norte, e com o surgimento da Porta-Estandarte Marcela Marialva. O momento foi encerrado com boa aceitação da galera azulada.
Ritual Maraká
O Ritual Xamanístico Asurini expressa uma concepção ancestral onde o xamã atravessa os limites entre o mundo humano e mundo sobrenatural. Durante esse transe, o pajé incorpora esses espíritos e adquire suas características e torna-se responsável por trazer cura, proteção e força vital para a comunidade. Na arena do Boi Caprichoso, o Maraká surge como expressão ancestral dos povos originários e da profunda relação entre floresta, espiritualidade e coletividade.

Destaques
A Sinhazinha da Fazenda Valentina Cid chegou à arena em um Beija-Flor içado por guindaste, sendo aplaudida pela Comissão Julgadora e aclamada pela nação azul e branca.
O cantor e ex-levantador de toadas do azul e branco Edilson Santana cantou a toada Paixão Azul, de 2007. Um momento emocionante ao povo do Palmares e Francesa.
O Caprichoso retorna à Arena do Bumbódromo neste domingo, 28, para abrir a última noite de apresentação dos Bumbás no 59° Festival Folclórico de Parintins.


Fotos: Mauro Neto e Tiago Correa/Secom