Sem medo de ser feliz

É desejo, neste 2023, soltar a emoção mais pura e verdadeira, até então retida no cofre de padrões deterministas, e mergulhar num orgasmo infinito de amorosidade, acolhimento, escuta a si e a todas as formas de vida...

Por: Fátima Guedes - 31/12/2022

Sem medo de ser feliz Foto: Arquivo Pessoal

Fátima Guedes *

 

Na poética de Caetano Velloso, o tempo é compositor de destinos, tambor de todos os ritmos... tempo, tempo.... E o tempo/circunstância entrecruza 2022 às utopias dos anos 80, tentando convencer que o novo ano apagará as marcas do que se foi, abrindo-se para novos sonhos. Em essencialidade, não deixa de ser uma mística ideológica.

 

Nessa transição, as interlocuções com o espírito do tempo ativam memórias, valores ancestrais e se abrem a diálogos com os mistérios da última lua crescente cujo olhar entreaberto sobre o lilás da tarde que finda anuncia que-fazeres* transformadores. Meus pés já um pouco cansados de infindas jornadas repousam sobre o verde flácido do Cóio das Utopias - agrofloresta urbana, no Bairro Tonzinho Saunier (Parintins/AM). Agradecida, despeço-me de 2022 e embarco no movimento das utopias.

 

Tudo é mistério na complexidade do cosmo... A Rainha da Noite*, em fase ascendente/adolescente, acolhe nos canteiros dos sonhos projetos e compromissos com o bem viver universal. A posição é de desafio... São muitas incógnitas, infinitos questionamentos: nebulosos, ao mesmo tempo, alvissareiros... Em sintonia, o aconchego da agroflorestinha oferece tons de silêncio para mergulhos nas profundezas de nossa força vital subversiva*, sombras históricas indeléveis: diálogo com o Eu Maior - portal para quem ousa viajar em inéditos viáveis* e construir modos justos e amorosos em 2023.

 

É hora, portanto, de soltar as asas e encarar o desconhecido eterno sem olhar para traz qual o bobo do tarô*. É o aqui/agora apontando trilhas a quem se arrisca construir esperançamentos sem medos ou preconceitos...

 

Autoconhecimento, autoconsciência, autorresponsabilidade, autoeducação são os primeiros passos no enfrentamento em tempos de tensões profundas, de incertezas sistêmicas.

 

Na sequência do voo é fundamental praticizar filosofias que dialogam com o Fogo-Logos*, pressuposto ao equilíbrio e à paz universal. Entre milhares de influências numinosas, a memória traz Jesus de Nazaré, Hélder Câmara, Buda, Lao-Tsé, Heráclito, Mirella Faur, Jung, Marx, Mèszáros, Beauvoir, Luxemburgo, Margaridas, Paulo Freire, Chico Mendes, Ir. Dorothy, Primavesi, Bruno e Philips... Combustíveis inalienáveis para voos além fronteiras.

 

Ser feliz sem medo também forja a busca do conhecimento alinhado à sabedoria ancestral: o que somos e de onde viemos... Em se tratando do Ser Fêmea - matriz da existência universal-, a poeira se inquieta* nas jornadas diárias por autoafirmação humana e política.

 

Ainda no mapeamento do desafio para o novo ano, a educação popular propõe o compromisso com a ética universal humana*, credo político libertador.

 

Se faz indispensável no voo...

 

Independentemente das feridas da alma, brincar e viver a simplicidade, a alegria, a pureza da criança interior.... Sentir o aconchego da Mãe Terra sob os pés descalços; acolher o frescor do vento sobre a liberdade dos cabelos esbranquiçados, despenteados, pixains... Entregar-se às carícias da chuva; bebê-la na concha das mãos sem preocupações com taxas, impostos ou com as recorrentes contaminações... Brincar com as folhas secas dançando ao vento, recolhê-las sem tardança convertendo-as em alimento para o solo... Verde que te quero ver.

 

Constitui-se ainda linha de frente: vencer medos, discriminações; Ser e/ou não Ser assumindo acertos, defeitos, vitórias, derrotas... Combater formalismos, preconceitos, regras, dogmas, subalternalidades, crenças e tantas outras influências nocivas a um desenvolvimento saudável e autônomo.

 

Não se pode esquecer de soltar a emoção mais pura e verdadeira (até então proibida nos padrões deterministas), e mergulhar num orgasmo infinito de amorosidade, acolhimento, escuta a si e a todas as formas de vida... Apertar a mão de cada criatura, independente da espécie; buscar a unidade nas divergências, praticizar a dialética, sem trair a lealdade aos instintos selvagens, às intuições, aos valores e ideais de liberdade, autonomia, priorizando a Justiça Social...

 

E, antes da partida para a Terra sem Males, atrair o maior número possível de manas, de manos, na tentativa de alcançar as(os) que se estagnaram na beira do caminho seduzidos(as) por salvadores(as) de pátrias, por falsos(as) profetas, por fariseus hipócritas...

 

Por último (aliás - por último-, é vício de linguagem... O tempo é inventivo e contínuo) fica a provocação: aventurar-se no que ainda nos resta, sem medo de ser feliz!

 

                                            Falares da casa

Bobo do tarô – Aquele que se lança ao novo sem preocupação, pela curiosidade de experimentar coisas imprevisíveis. É também interpretado como o louco que parte em busca de algo, de um desejo... Uma busca que sufocada durante muito tempo.

 

Ética universal humana – Direito de ser, de viver dignamente, de amar, de estudar, de ler o mundo e a palavra, de superar o medo, de crer ou não crer, de repousar, de sonhar, de fazer coisas, de perguntar, de escolher, de dizer não na hora apropriada, na perspectiva de permanente sim à vida. (Paulo Freire - Pedagogia da indignação)

 

Fogo-Logus - O ponto mais alto; o ponto ômega; a mente universal. (Heráclito. Fragmentos)

 

Força vital subversiva - Referência às nossas máscaras. (Verena Kast. A sombra em nós)  

 

Inéditos viáveis - Coisa inédita, ainda não claramente conhecida e vivida, mas sonhada, e quando se torna um “percebido destacado” pelos que pensam utopicamente esses sabem, então, que o problema não é mais um sonho, que ele pode se tornar realidade. (Nita Freire)

 

Poeira se inquieta - Referência ao poema Poeira Inquieta, da parintinense Joelma Maia.

 

Que-fazeres - Expressão Freireana referente à Reflexão-Ação, numa perspectiva de educação popular.

 

Rainha da Noite – A Lua.

 

Fátima Guedes é educadora popular e pesquisadora de conhecimentos tradicionais da Amazônia. Uma das fundadoras da Associação de Mulheres de Parintins, da Articulação Parintins Cidadã, da TEIA de Educação Ambiental e Interação em Agrofloresta. Militante da Marcha Mundial das Mulheres (MMM) e Articulação Nacional de Movimentos e Práticas de Educação Popular e Saúde (ANEPS). Autora das obras literárias, Ensaio de Rebeldia, Algemas Silenciadas, Vestígios de Curandage e Organizadora do Dicionário - Falares Cabocos.

 

  1. Campanha “Lula lá - Sem Medo de Ser Feliz” 1989. Foto: Paula Simas. Acervo: CSBH / Fundação Perseu Abramo

 

  1. Diálogo com todos os seres no Cóio das Utopias. Foto: Floriano Lins
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