Médico Daniel Tanaka, da linha de frente de combate ao novo coronavírus, é contra realização do Festival de Parintins 2020

Médico Daniel Tanaka, da linha de frente de combate ao novo coronavírus, é contra realização do Festival de Parintins 2020 Foto: Reprodução Internet/Facebook Notícia do dia 17/07/2020

O médico Daniel Tanaka, da Secretaria Municipal de Saúde, um dos profissionais da linha de frente de combate ao novo coronavírus, em publicação no Facebook, no dia de ontem (16/07), manifesta posição contrária à realização do Festival de Parintins 2020, como pretendem os presidentes dos bumbás Garantido e Caprichoso, inclusive com a definição da data de 6, 7 e 8 de novembro.

 

O médico anestesista Daniel Tanaka, que contraiu a covid-19 no mês de abril em Parintins, e devido à gravidade da doença precisou ser transferido para São Paulo, para tratamento especializado, comenta que "existem dois modos de enxergar a possível realização da festa”.

 

O médico, profissional de Saúde, comenta que vivenciou dezenas de óbitos e chorou dezenas de vezes com famílias enlutadas. Tanaka contraiu a Covid-19, passou pelo período de quarentena, mas quando voltou ao trabalho teve complicações na saúde.    

 

Para quem passou pela mais dura experiência em sua vida sabe o que está dizendo para que a festa dos bumbás não seja realizada este ano: primeiro como médico, cuidando de pessoas acometidas com o vírus, passando pelo estresse dos ambientes da unidade de saúde e acompanhando o sofrimento dos familiares, e segundo, como paciente que esteve à beira da morte.

 

Não ao Festival 2020

 

Existem dois modos de enxergar a possível realização da festa.

A primeira visão é uma questão de bom senso e de sensibilidade com as famílias enlutadas. Nessa visão, proceder a um festival que vai aglomerar pessoas de forma singular e com alto potencial de explosão nas contaminações (é ilusório e até infantil acreditar que haverá respeito à medidas sanitárias como de distanciamento social) é, ao meu ver, ser insensível às mais de cem famílias parintinenses que tiveram a perda do ente querido. Além de insensibilidade, é ao meu ver falta de respeito.

 

A grandiosidade do festival como manifestação folclórica e a importância econômica do mesmo não se sobrepõe ao momento de tristeza. E aumentar o nível de contaminação, que de fato acontecerá caso o festival seja realizado, é diminuir a importância de cada vida perdida. É minimizar o valor da Vida. Sobrepor motivação financeira aumentando a mortalidade é extrapolar o limite do razoável para um ano de imenso sofrimento.

 

Talvez os que defendem tal ideia não devam ter perdido um pai, uma mãe ou um grande amigo para a Covid-19.

 

A segunda visão, que discute viabilidade do evento, no qual as agremiações defendem a realização segundo estudos (os quais foram citados pelos Bois, e não foram apresentados, mesmo após requisição pela Defensoria Pública, podendo configurar crime de desobediência, portanto) é totalmente rasa, superficial. Não há estudos conclusivos sobre a questão da imunidade e controle da pandemia no âmbito do Estado e, em especial, do município de Parintins. A diminuição da incidência de óbitos e internações não garante que a população esteja de fato imunizada. Traduz sim que as medidas de distanciamento e uso de máscaras têm significância, mas não tem valor preditivo que se possa colocar à prova num evento em que é impossível dizer que respeitará medidas sanitárias cabíveis. É uma afronta à inteligência das pessoas querer que acreditem que essas medidas sejam plausíveis.

 

Já o Estado do Amazonas, caso se posicione a favor da realização da festa, estaria desrespeitando a desastrosa história recente a qual foi protagonista desse desastre, o qual contou inclusive com câmaras frigoríficas para armazenar corpos na porta de hospitais. O Governo, ao não ter se preparado para o enfrentamento de maneira adequada e precoce, passou longe de ser um exemplo no quesito previsões epidemiológicas.

 

Se a gestão municipal não tivesse tomado medidas de prevenção, visando o distanciamento, como o decreto da obrigatoriedade do uso de máscaras e do toque de recolher, e não tivesse dado ouvidos ao corpo de saúde para se armar de maneira precoce para o enfrentamento da pandemia, não estaríamos chorando a morte de 92 cidadãos e cidadãs até então, mas possivelmente de milhares de mortos.

 

Esperar, portanto, do Governo do Estado e seus órgãos de vigilância, estudos ou previsões sobre viabilidade de eventos como um festival que reúne milhares de pessoas num ambiente festivo, numa cidade-ilha, e confiar nesses estudos, é creditar uma catástrofe.

 

Com relação aos Bois, quando defendem tanto os trabalhadores, que terão prejuízos com a não realização da festa, a de se destacar que historicamente essa preocupação com os trabalhadores não é prioridade para eles, visto o enorme déficit que possuem em processos trabalhistas que não fizeram questão de honrar.

 

Então, desculpe a sinceridade, não cola esse argumento.

 

A pandemia ainda não teve fim. A Covid-19 ainda não tem cura. A vacina é apenas uma promessa no momento. A maioria das pessoas não estão ainda imunes.

 

Vamos respeitar esse duro momento.

 

Não se pode colocar à prova vidas de pessoas vulneráveis.

 

O brincante do festival de novembro pode estar enterrando seu pai, sua mãe, seu avô ou sua avó em Dezembro, mês do nascimento de Cristo.

 

Não ao Festival 2020. Não sujem o nome desse patrimônio cultural de sangue.

 

O valor da Vida é Maior.

 

Sim ao Festival 2021. Será o maior é mais lindo Festival.

 

Daniel Tanaka

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