Foto: Reprodução da TV
Notícia do dia 23/10/2026
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, e o senador Flávio Bolsonaro (PL) participaram, nesta sexta-feira (23), do último debate presidencial antes do segundo turno das eleições, marcado para domingo (25). Transmitido pela TV Globo, o encontro reuniu propostas para as cinco regiões brasileiras, discussões sobre problemas nacionais e uma intensa troca de acusações entre os adversários.
Ao longo dos quatro blocos, os candidatos apresentaram visões diferentes sobre a condução da economia, os investimentos públicos, o combate à criminalidade e as políticas sociais. Entretanto, especialmente na etapa final, o confronto foi dominado por questionamentos sobre supostas irregularidades, patrimônio e relações políticas, reduzindo o espaço para o aprofundamento das propostas.
Economia e endividamento dominam confronto
A situação econômica do país foi um dos assuntos mais recorrentes. Flávio Bolsonaro criticou a política fiscal do governo Lula, associando o crescimento da dívida pública e as taxas de juros às dificuldades enfrentadas pelas famílias brasileiras.
O candidato do PL afirmou que pretende reorganizar as contas públicas, reduzir impostos e transformar a Caixa Econômica Federal em um instrumento de renegociação de dívidas, denominado por ele de Banco da Prosperidade. Entre as propostas apresentadas estão a suspensão temporária de pagamentos e a ampliação do crédito para pequenos empreendedores.
Lula rebateu as críticas, defendendo os investimentos públicos como instrumentos de crescimento econômico, geração de empregos e distribuição de renda. O presidente destacou os programas Desenrola e anunciou a intenção de ampliar a renegociação de dívidas por meio da aquisição de créditos bancários com descontos.
O candidato do PT também defendeu a política de valorização do salário mínimo acima da inflação e afirmou que o crescimento da economia é fundamental para reduzir o peso da dívida pública em relação ao Produto Interno Bruto (PIB).
Os dois candidatos prometeram preservar a valorização do salário mínimo, embora tenham apresentado diagnósticos diferentes sobre a situação econômica brasileira.
Amazonas e Região Norte entram no debate
Um dos momentos de maior interesse para os eleitores amazonenses ocorreu quando a Região Norte foi sorteada como tema.
Flávio Bolsonaro concentrou sua participação na necessidade de ampliar o acesso ao saneamento básico, defendendo a retomada das metas de universalização previstas no marco legal do setor. O candidato também prometeu preservar e ampliar a Zona Franca de Manaus, estimular investimentos em tecnologia e aproveitar o potencial do gás natural do Amazonas para a produção de fertilizantes.
O senador defendeu ainda a melhoria da infraestrutura rodoviária, especialmente na Amazônia, e maior autonomia dos povos indígenas nas decisões sobre seus territórios.
Lula respondeu destacando investimentos federais em infraestrutura, aeroportos, portos e rodovias. O presidente mencionou a ligação terrestre entre Porto Velho e Manaus e defendeu a ampliação de projetos associados à economia verde.
Na avaliação do candidato do PT, a floresta preservada pode gerar oportunidades econômicas por meio de atividades sustentáveis. Lula também ressaltou a importância do Fundo Amazônia e criticou a política ambiental adotada durante o governo de Jair Bolsonaro.
Apesar das referências ao Amazonas, o debate não apresentou um detalhamento específico de políticas para municípios do interior, como Parintins, que enfrentam desafios relacionados ao abastecimento de água, saneamento, transporte, saúde e preservação ambiental.
Saúde pública e pandemia provocam embate
O Sistema Único de Saúde (SUS) também esteve no centro das divergências.
Lula questionou a política de financiamento da saúde defendida pela equipe econômica de seu adversário e relembrou a atuação do governo Jair Bolsonaro durante a pandemia de Covid-19, especialmente a crise de oxigênio registrada em Manaus.
O presidente defendeu o fortalecimento do SUS e criticou a condução da emergência sanitária pelo governo anterior.
Flávio Bolsonaro negou qualquer intenção de privatizar ou reduzir os investimentos no sistema público. O candidato afirmou que pretende melhorar a gestão dos recursos, ampliar o atendimento especializado, reduzir as filas para cirurgias e atualizar os valores pagos aos prestadores de serviços pela tabela do SUS.
Também prometeu apoiar financeiramente as Santas Casas e investir na ampliação da estrutura de atendimento oncológico.
Educação e políticas sociais
Na educação, Lula destacou a expansão de universidades, institutos federais e programas de permanência estudantil. O presidente defendeu a ampliação do ensino em tempo integral e a continuidade do Pé-de-Meia, programa de incentivo financeiro à permanência de estudantes no ensino médio.
Flávio Bolsonaro afirmou que manterá o Pé-de-Meia e prometeu ampliar a oferta de ensino integral, associando a permanência dos estudantes nas escolas à formação técnica, ao aprendizado de novas tecnologias e à prevenção da criminalidade.
O candidato também apresentou uma proposta de auxílio-creche para famílias que não encontrarem vagas na rede pública.
Na discussão sobre políticas sociais, Lula questionou o voto de Flávio Bolsonaro, quando deputado estadual, contrário à ampliação da licença-maternidade. O senador reconheceu que sua posição foi equivocada e afirmou que atualmente votaria de maneira diferente.
O episódio foi um dos poucos momentos em que um candidato admitiu publicamente uma mudança de entendimento sobre uma decisão anterior.
Segurança pública expõe diferenças
A segurança pública provocou alguns dos confrontos mais intensos.
Flávio Bolsonaro defendeu o endurecimento das penas, a redução da maioridade penal para determinados crimes e a classificação de facções criminosas e milícias como organizações terroristas. Também prometeu ampliar o encarceramento e fortalecer o combate ao tráfico de drogas e armas.
Lula defendeu sua proposta de reorganização da segurança pública, com fortalecimento da Polícia Federal, da Polícia Rodoviária Federal e maior integração entre União e estados.
O presidente também mencionou a criação de um ministério específico para a segurança pública e criticou as relações políticas que atribuiu ao adversário com integrantes de milícias no Rio de Janeiro.
Flávio rejeitou as acusações e afirmou que pretende combater tanto as facções criminosas quanto as milícias.
Ataques pessoais marcam último bloco
O quarto bloco, reservado a perguntas de tema livre, foi marcado por acusações relacionadas a patrimônio, relações com empresários, supostos favorecimentos e denúncias de corrupção.
Lula questionou Flávio Bolsonaro sobre uma disputa envolvendo uma ilha reivindicada pelo jogador Richarlison e sobre relações atribuídas ao senador com pessoas investigadas em outros episódios.
Flávio negou irregularidades e respondeu com questionamentos sobre o patrimônio de familiares de Lula, gastos públicos e supostas relações com empresários.
Também foram mencionados episódios envolvendo o Banco Master, a atuação de agentes públicos e alegações de favorecimento político.
As acusações foram apresentadas pelos candidatos durante o confronto e não constituem, por si só, comprovação das irregularidades mencionadas. A avaliação dessas declarações exige documentação, decisões judiciais e verificação independente.
O clima de tensão levou a pedidos de direito de resposta e intervenções da mediação para garantir o cumprimento das regras.
Considerações finais e disputa pelo eleitor indeciso
Nas considerações finais, Lula pediu a renovação de seu mandato, apresentou sua trajetória política e defendeu a continuidade das políticas sociais, associando sua candidatura à preservação da democracia.
Flávio Bolsonaro pediu votos com o compromisso de recuperar o poder de compra das famílias, enfrentar a criminalidade e promover mudanças na condução econômica do país.
Os dois encerraram suas participações procurando estabelecer um contraste entre continuidade e mudança, principal característica da disputa presidencial nesta reta final.
Análise: propostas ficaram em segundo plano
O debate evidenciou diferenças entre os projetos políticos apresentados pelos candidatos, mas também mostrou as dificuldades de transformar um confronto eleitoral em uma discussão aprofundada sobre soluções para os problemas brasileiros.
Lula procurou valorizar os resultados de suas administrações e apresentar a continuidade dos investimentos públicos como caminho para o desenvolvimento econômico e social. Flávio Bolsonaro concentrou sua argumentação na crítica à situação econômica atual, à segurança pública e à necessidade de mudanças administrativas.
Entretanto, o predomínio de ataques pessoais no último bloco limitou a discussão sobre a viabilidade financeira, os prazos e os mecanismos de execução de várias promessas.
Para o Amazonas, ficaram em evidência questões fundamentais, como a preservação da Zona Franca de Manaus, a expansão do saneamento básico, os investimentos em infraestrutura e a utilização sustentável dos recursos da floresta.
O debate terminou sem um aprofundamento sobre como essas propostas alcançariam efetivamente as populações do interior amazônico, especialmente as comunidades rurais, indígenas e ribeirinhas.
A dois dias da votação, cabe ao eleitor avaliar não apenas as promessas e as críticas apresentadas, mas também o histórico dos candidatos, a consistência dos programas de governo e a capacidade de transformar compromissos eleitorais em políticas públicas.
O segundo turno das eleições presidenciais será realizado neste domingo, 25 de outubro, quando os brasileiros decidirão quem governará o país pelos próximos quatro anos.