Foto: Gabi Vitim/Secretaria de Cultura e Economia Criativa
Notícia do dia 24/06/2026
Antes dos holofotes se voltarem para a realização do 59º Festival de Parintins, as ruas do município (a 369 quilômetros de Manaus), são tomadas por uma festa tradicional que move fé e paixão. No Dia de São João, celebrado nesta quarta-feira, 24 de junho, o Boi Garantido realiza a tradicional ladainha, manifestação antecede a saída do bumbá pelas ruas da Baixa do São José e reúne cânticos, orações e expressões de fé que marcam a devoção da comunidade ao boi encarnado.
Com mais de oito décadas de realização, a ladainha é considerada uma das mais importantes tradições do calendário cultural do município e tem origem na promessa feita pelo fundador do Boi Garantido Lindolfo Monteverde a São João Batista, fortalecendo a relação entre religiosidade e cultura popular amazônica.
A ladainha integra o conjunto de manifestações religiosas e culturais que compõem o ciclo do Boi Garantido e reforça a identidade cultural da Baixa do São José, berço histórico do bumbá vermelho e branco.
Durante o percurso, o boi percorre as ruas da Baixa do São José e realiza paradas simbólicas em pontos tradicionais da comunidade. Torcedores aguardam a passagem do bumbá e enfeitam ruas e casas, além de acender fogueiras em celebração ao aniversário do Boi Garantido.
Tradição e memória cultural
Em um desses percursos, está a residência da família de Braulino Lima, compositor, sócio fundador do Boi Garantido e importante nome da história do bumbá. Ele integrou os primeiros anos do boi ao lado de Lindolfo Monteverde e, hoje, aos 86 anos, relembra o início da tradição e a relação com a formação do bumbá.
“Ele mandava a gente costurar a barra do boi, a face do boi, o rabo do boi. A ladainha foi a promessa que ele fez e aí cresceu muito”, disse Braulino Lima.
O compositor também destaca o sentimento ao ser lembrado pelo boi durante o cortejo. “Eu fico muito feliz em saber que não esqueceram. Quando o boi passa aqui e me cumprimenta, eu fico grato por isso, com essa consideração que têm comigo”, afirmou.
A família de Braulino Lima mantém participação ativa na tradição, contribuindo para a preservação da memória do boi e para a continuidade do ritual ao longo das gerações. A filha do compositor, Marinilda Lima, destaca a forte ligação do pai com a história do boi desde a infância, quando participava ativamente da construção e das apresentações do Garantido.
“O meu pai participou desde os sete anos, confeccionando o boi, brincando de índio, de batuqueiro, de toureiro. Ele foi também vaqueiro do boi. Tudo isso faz parte dessa memória viva”, declarou Marinilda Lima.
Para a família, a ladainha é mais do que um ritual religioso: é também um elo entre fé, identidade cultural e pertencimento ao boi-bumbá. “É um momento de oração, mas também de alegria. Eu sou católica, e a gente vive isso com muita devoção e emoção. Ao mesmo tempo, é uma paixão pelo Garantido que passa de geração em geração”, afirmou a filha de Braulino Lima.
Ela reforça que a tradição segue viva graças ao envolvimento das famílias da Baixa do São José e ao compromisso com a preservação da cultura popular. “Isso não é só brincadeira. É fé, é história, é amor pelo boi. E isso foi passado pelo meu pai e continua com a gente até hoje”, concluiu.
A manifestação integra o compromisso do Governo do Amazonas para contribuir com a valorização da religiosidade, da memória coletiva e da diversidade cultural da região, além de reafirmar a importância das manifestações tradicionais do boi-bumbá para o fortalecimento da cultura amazônica.