Avanços e desafios para a Escola Pública no Amazonas

Avanços e desafios para a Escola Pública no Amazonas Foto: Gerlean Brasil Notícia do dia 11/03/2015

Durante algumas gerações, o Brasil foi marcado por uma série de transformações e mudanças que cristalizaram a idéia de que a escola pública no Brasil era sinônima de falência e incompetência. Esse período foi marcado por episódios lamentáveis de descaso e total abandono, onde representava o retrato fiel de um estado decadente, cujo cenário era pintado a mãos exclusivas e dominadoras.

 

A escola pública deixava a desejar em diversos âmbitos, principalmente no que tangia à formação de alunos oriundos de classes desfavorecidas, apesar de nomes de vultos renomáveis de nossa história, sejam advindos do ensino público. Escolas funcionando em estado precário, professores sem a qualificação necessária para atuar de forma profícua e eficiente; metodologias bancárias e ineficientes solidificando técnicas que defendiam a mecanização de conteúdos e com isso empurravam cada vez mais pais para o caos intelectual e alienante. No que tangia às estruturas físicas, o problema era bem mais sério, escolas funcionavam em prédios antigos e com escassos recursos, sem o menor conforto, nem qualidade, equipamentos obsoletos e desgastados, que em quase nada dignificavam em facilitavam a missão do professor, que para completar era remunerado com os menores salários e ainda precisavam esconder-se atrás da filosofia de que ensinar era missão divina.

 

Por décadas expandiu-se no Brasil o ensino mecanicista, onde a palavra ordem era a detentora de todos os pensamentos, filosofias e correntes que consequentemente atingiam a escola de forma austera, sublimando um ensino pautado na repetição e memorização, circundante do mecanismo dominante social.

 

A partir de não tão recentes, mais relevantes correntes pedagógicas imbricadas na Lei 9.394/96, que postulavam a adesão de um novo olhar à escola pública, vieram mudanças inerentes não somente ao espaço físico, mas a uma nova postura de método e concepção no ideário educacional brasileiro. Interessa ressaltar que há muito se luta por uma escola mais livre, laica e democrática, porém, muito se pensou de forma paradoxal, ou seja, na teoria era tudo perfeito e exeqüível, na prática não se oferecia condições de realização e perpetuava-se o senso comum.

 

Porém, enquanto a escola caminhava de forma lenta e gradativa, aceitando, entendendo outra tese, que ora dava certo, ora mostrava-se incoerente às praticas reais, o novo cenário foi sendo construído e a força do domínio secular que exigia um cidadão capaz, critico e autônomo forçou a mudança mais radical: a implementação de novos conhecimentos, dessa vez no cerne de quem forma e educa, mesmo que saibamos que a escola continuasse seu papel de aparelho ideológico, aos poucos se iniciou uma etapa de formação profissional mais atuante e destinada a atender a base social, ou seja, a escola aberta, onde filhos não somente de pessoas de classe alta tivessem acesso a uma educação melhor, mas que todos pudessem receber uma qualidade de ensino melhor e de resultado mais eficaz para o meio social. Dessa forma, a escola passaria não somente a ensinar a reproduzir, mas a tentar criar. A mesma sairia do campo do abstrato e passaria a trazer para a prática o sentido do conhecimento.

 

Seguiu-se então uma nova etapa, onde professores iniciaram a busca pela sua formação e parafraseando o teórico da época, a educação é um caminho sem volta.

 

Fortaleceram-se então as universidades e buscou-se alijar o conhecimento ao campo da pesquisa buscando a técnica “in loco”, onde os alunos seriam os principais focos de resultados que sinalizassem mudanças nas posturas pedagógicas suplantadas pelas novas teorias.

 

Dessa forma, surgiram novas temáticas, lançaram-se novos olhares ao espaço escolar e ao cotidiano de alunos e professores, que agora eram insuflados a sentir a necessidade de trazer o aluno para o mundo real, onde pudesse experimentar na prática, o que se aprendia na escola e com isso melhorar suas expectativas de crescimento pessoal, aos poucos se foi moldando o novo contexto. Havia uma nova palavra-chave: qualidade. Sentido que representava a multifacetada obra da escola na vida do individuo, ou seja, a partir de então não havia necessidade somente do domínio da leitura e da escrita, mas do uso que se fazia desses elementos para a construção de um individuo mais capaz e seguro do que desejava fazer ou querer.

 

Com a chegada dos primeiros Cursos de Licenciatura no Amazonas, ainda de forma tímida e silenciosa, os primeiros gritos de liberdade intelectual foram sendo ouvidos e a educação passou a representar um novo rumo no campo social, isto é, passou-se a ter mais critério com a forma do que com o conteúdo, quebrando assim alguns paradigmas da escola tradicionalista que imperava na época, por conta do domínio capitalista, dando muita chance a quem tem mais e quase nenhuma a quem pouco possuía, dirimindo assim suas chances de crescimento ; muitos se fortalecia o Estado com uma elite intelectual que conduzia e manipulava as “massas”, porém a palavra de ordem agora era equidade social, mesmo que para disfarce da primeira situação citada.

 

O tempo passou e com a implantação da Lei há bem mais tempo que se possa imaginar, os ares de modernidade chegaram ao nosso estado amazônida. Com eles a era da cientificidade nos cursos técnicos que se expandiram, no livre e mais fácil acesso da camada mais humilde a escolas mais renomadas, funde-se de vez então o ideário da equidade social, que oportunizava uma maior oportunidade aos cursos de terceiro grau.

 

Era a o período de regozijo intelectual. O aluno que há anos terminara o 2º. Grau finalmente tinha a oportunidade de cursar em seu próprio estado um curso universitário, foi a época renascentista para um estado, até esquecido e discriminado num país que preferia ou prefere crer que no Amazonas os habitantes indígenas ainda andam desnudos e mantêm sua língua materna intacta. Essa ignorância foi aos poucos reparada, pois no bojo do que possuíamos de maior valor, nosso solo, floresta e fauna, ainda por cima saímos da era de escassos indivíduos intelectuais.

 

O caminho sem volta se atenuou na mente de professores e também alunos que atualmente conhecem seus direitos e deveres dentro e fora da escola, assim como os pais fazem parte de uma era que obedece a um comando social que tem como intuito fazer seu filho permanecer no espaço escolar, mesmo que para isso pague ao mesmo uma bolsa deste ou outro beneficio. Mas estes insumos trouxeram aos bancos escolares alunos que antes eram levados ao trabalho forçado, e por medida de lei, são estimulados a estudarem e prosseguirem seus estudos. Os professores concluíram suas Licenciaturas e o desejo de prosseguir foi insuflado a galgar novos rumos e reescrever uma nova estória na educação amazonense.

 

Somos agora o retrato de uma nova época, um momento novo, onde professores aperfeiçoam-se em suas áreas especificas, e injetam na entidade escolar estímulos acerca de novos projetos e novas tecnologias. O ambiente escolar tornou-se mais amplo e dialético, frutos da formação inicial e secundária de quem está no comando das escolas atuais. Dessa forma, o currículo insosso e descontextualizado trouxe consigo ares de mudanças e atualizações quanto às necessidades de alunos e da própria escola, ambos pautados em suas realidades. Reitera-se a postura do profissional que antes trabalhava com recurso dito artesanais, cita-se de passagem: o mimeógrafo, o flanelógrafo, o quadro de giz, retroprojetor de slides, etc., tudo isso ficara para trás e o mesmo precisa adequar-se ao novo momento, o de ir a busca de formação tecnológica, e mais, como utilizar essas novas tecnologias em sala de aula, tendo em vista que o mesmo possui alunos que são capazes de montar e desmontar um equipamento que ele próprio não conseguia sequer ligar.

 

Com isso, urge a necessidade de dar ao ambiente escolar uma nova dinâmica e a sala de aula precisou adequar-se a isso; as aulas não podiam mais serem ministradas somente com a presença antes quase etérea do professor, que agora precisa de novos recursos e equipamentos, não só por questões de modismos, mas por necessitar acompanhar o novo ritmo que a própria clientela impõe a aula.

 

A figura do diretor, magnânima, austera e incorporou-se o termo gestor, agora mais democrático, participativo, dinâmico e acima de tudo flexível às ações pertinentes ao progresso da escola, sua maior função é subsidiar as ações e intermediar melhorias e idéias no espaço escolar, corroborando para o bem comum do ambiente escolar, compactuando com a equipe docente e pedagógica os rumos que sua escola precisa galgar. Não cabe mais neste contexto, o egocentrismo ou o sentimento de posse que muitos ainda insistiam ou insistem em ter pela escola, delegando tarefas e controlando as ações como um “coronel’, até mesmo pelo motivo óbvio, nem alunos muito menos os professores aceitariam uma postura dessa natureza sem replicar direitos.

 

Um tópico muito importante, os recursos destinados à escola, hoje são provenientes de projetos e ações muito bem planejadas e com destino conhecido por todos os que acompanham as ações governamentais, pois é de domínio público as verbas e os projetos aprovados para cada Estado e município.

 

Especificamente no Amazonas, a atual situação mostra um estado renovado no que concerne à educação, escolas estruturam-se e ampliam-se, algumas saindo de décadas de falta de manutenção e reparos, passando agora por revitalização e algumas construídas novamente, é importante ressaltar que a escola publica no Amazonas toma uma nova feição, com resultados consistentes e valorizados em âmbito nacional. Sabemos das dificuldades que ainda sofremos por conta de nosso próprio relevo e coerência nas informações que chegam aos órgãos competentes. Contamos com uma equipe mais atuante, que exige e sugere mais melhorias para a instituição pública.

 

Estamos nos reportando às escolas da capital e interior do estado que recebem assistência e proventos diretos do Governo Federal através das Secretarias do Estado, o que dirime os resultados negativos e ressalta os frutos da dedicação das coordenadorias regionais. A situação é mudança quase que radical, apesar dos muitos percalços, pois hoje as escolas recebem a manutenção e assistência técnica e pedagógica, recebendo equipamentos tecnológicos, onde se programa um trabalho voltado ao aprofundamento cientifico e tecnológico, com laboratórios de Informática, Química, Física, Biologia, etc. É uma incessante busca de parcerias entre as Universidades que antes somente criticavam e aplaudiam de pé o insucesso da escola pública, hoje encontra as portas da mesma para propiciando a realização de suas propostas de mudança no âmbito do ensino básico.

 

Interessante falar da implementação de projetos financiados pela FAPEAM - Fundação de Amparo á Pesquisa , que injetam em professores e alunos a cultura cientifica e espírito de pesquisa em ambiente escolar, onde os próprios alunos se tornam atores dessas ações . Relevante impulso tais projetos trouxeram, pois ofereceram mais consistência às práticas pedagógicas, cujo trabalho não se faz mais de forma aleatória, nem desnorteado, mas pautado em correntes atuais e pertinentes ao desenvolvimento de competências e habilidades amparadas nas diretrizes da educação básica brasileira.

 

Autora: Rosangela Telma Batista Souza de Jesus

*A autora deste artigo é professora de idiomas, é formada em Letras na área de Língua Portuguesa pela UEA e cursa a área de Língua Inglesa pela UFAM. É especialista na área de Metodologia do Ensino de Língua Inglesa. Atualmente atua como Coordenadora da área de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias no CETI Deputado Gláucio Gonçalves e também é responsável pelo projeto de divulgação do site da CREP/ Coordenadoria Regional de Parintins. É professora há vinte anos e é apaixonada pelo que faz.

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