Aluno de Raul Lage instala em Parintins oficina para fabricar instrumentos musicais

Aluno de Raul Lage instala em Parintins oficina para fabricar instrumentos musicais Fotos: Josiete Serrão Notícia do dia 12/02/2020

Por Neudson Corrêa

 

O conhecimento das notas musicais não foi suficiente para que Artur Sérgio Seixas Marques, 41, se transformasse em um artista renomado, mas confeccionando os próprios instrumentos que o luthier (nome atribuído a um profissional que constrói ou faz reparos em instrumentos musicais) encontrasse sua profissão.

 

Por ser filho de marceneiro/carpinteiro, da comunidade Marajatuba, área rural do município de Urucará, distante 260 quilômetros de Manaus, carrega nas veias as habilidades para fabricar instrumentos musicais, capacidades que o tornam um dos únicos do gênero no Estado do Amazonas.

 

Em 15 anos na profissão ele já produziu mais de cem equipamentos, conta que não corresponde ao tempo de trabalho, porém se perde nos cálculos quando o assunto é conserto; números que podem ultrapassar mil peças que já passaram pelo seu ateliê para serem revitalizadas.

 

Artistas e grupos musicais da região já utilizam em seus shows uma obra assinada por Artur, entre eles o cantor Samuel Martins, da banda Cor Brasil (contrabaixo), baixista Naldo do Ferras do Forró (contrabaixo), James e Paulo Drumont (guitarra), sambista de Manaus, Frank (cavacos).

 

Orientação técnica

O ofício de luthier não entrou por acaso em sua vida. No laboratório do Instituto Federal do Amazonas (Ifam) recebeu orientação do cubano Raul Lage, considerado por muitos como um mestre na arte de confeccionar instrumentos, cujas peças são guardadas como relíquias por músicos e amigos do maestro. O jornalista Neuton Corrêa, do BNC Amazonas, foi um dos agraciados com um violão Lage.

 

Foto: Reprodução You Tube/BNC 

 

Raul morreu em Cuba, no dia 21 de março de 2019, mas escreveu seu nome na história da música, por meio de artistas consagrados como Péricles, ex-Exaltasamba e Diogo Nogueira, filho de um dos maiores sambista do país, João Nogueira.  

 

No ano de 2005, durante três meses como voluntário no Ifam, o urucaraense pode concluir o curso que era ministrado em um ano e oito meses, tendo como teste final a criação da primeira guitarra e do primeiro baixo da escola. “A prova era fazer um instrumento sozinho. Me dediquei bastante nisso porque eu queria aprender”, revela.

 

Violão de 7 cordas, bandolim, cavaco, contrabaixo e guitarra estão entre os instrumentos fabricados por Artur Seixas. Ele orienta como surge um genuíno violão amazonense. Para o tampão do aparelho sonoro, por exemplo, utiliza madeira das espécies marupá, morototó, cedro, que tem um conjunto de densidade apropriado.

 

 

Para o fundo e lateral, que são densidades médias, o luthier utiliza macacauba, jacarandá, sabuarana, louro, tauri, madeiras comprovadas pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) para a confecção de instrumentos. No braço do violão ele usa o cedro ou breu branco: a maioria espécie nativas da região amazônica.

 

Tempo de Fabricação

O processo de luteria artesanal é demorado e personalizado. Não é um processo rápido como o industrial, que passa por linha de montagem, porém o som é de altíssima qualidade. As peças em madeira são feitas sob medida, além de ter uma sonoridade singular, cuja técnica de construção não se compara com a industrial.

 

Artur Sérgio Seixas, que atualmente reside em Parintins, ressalta que faz reuso de madeiras, e cita como exemplo àquelas recolhidas de móveis antigos, como cômodas e camas que o dono está se desfazendo. A madeira tem que ficar pelo menos dez ou até vinte anos em processo de secagem natural.

 

“A gente trabalha com madeiras antigas porque a sonoridade do instrumento fica melhor. Já tem um processo de secagem há muito tempo e a fibra entra num processo de cristalização ou cria uns cristais dentro da madeira que ajudam na sonoridade do instrumento. Quanto mais velha melhor será o som do instrumento”, pontua.

 

Descoberta da vocação

Ainda sem saber o que seria da vida, em Urucará ingressou na escola flutuante do Senai, no barco ferry boat chamado Samaúma, que percorria o Amazonas para ministrar cursos profissionalizantes para centenas de jovens ribeirinhos. Com o barco escola ancorado no porto da cidade frequentou as aulas de marceneiro de pequenos objetos.

 

As aulas na beira do rio foram um pulo para estudar no Senai em Manaus. Na capital se especializou em pintura, afiação de ferramentas, solda, desenho técnico. Os cursos foram importantes para descobrir sua verdadeira vocação profissional, e tudo que aprendeu coloca em prática na oficina de luthieria.

 

Em Parintins

A vinda a Parintins foi planejada há três anos, logo depois de participar de um evento promovido pelo Sebrae, tendo como local o Parque de Exposição Luiz Lourenço de Souza, que todos os anos realiza a Feira de Exposição Agropecuária do município, com diversos estandes de produtos da indústria regional e nacional.

 

A partir daí pôde vislumbrar a instalação de uma oficina para fabricação e conserto de instrumentos musicais na cidade. A instalação será um espaço para atender profissionais do gênero musical, uma novidade no município e a certeza que instrumentos com defeito podem voltar a funcionar.

 

Êmile Souza, 19, que estava com a viola sem uso, há mais de seis anos, foi uma das primeiras clientes do luthier. As cordas musicais já não encontravam mais pressão entre as tarrachas, fato que dificultava a afinação. Nas mãos de Artur, em poucos minutos, o violão voltava a dar as primeiras notas musicais.

 

Como Parintins tem um grande potencial artístico e cultural, Artur Seixas viu um nicho de mercado entre compositores, músicos profissionais e alunos egressos dos cursos ministrados por professores particulares, pelas escolas de artes dos bumbás Garantido e Caprichoso, e Liceu de Artes e Ofícios Cláudio Santoro.

 

 

Com o projeto em andamento e perspectivas para melhorar de vida deixou para trás o emprego de professor que exercia na rede municipal de ensino, na Escola Nossa Senhora de Lourdes, em Urucará. Artur Seixas ministrava ensino religioso, artes, musicalização de instrumentos como flauta, violão, além de coral, fanfarra e boi-bumbá. 

 

“Minha vinda surge porque aqui não tem uma pessoa voltada para esse ramo, também por ter uma demanda muito grande, também por ter um enorme potencial artístico. Vejo que eu vou estar numa vitrine maior para poder desenvolver um trabalho da arte da luthieria, da música, e também aprender com os colegas, os artistas de Parintins”, prevê.

 

Em Parintins, o artista ganhou apoio do marceneiro conhecido por Paulo Bananeira. Paulo ofereceu acesso a sua fábrica de móveis instalada no Distrito Industrial. O local será para a preparação das peças em madeira entre elas o corpo, braço, tampo, lateral, cavalete, entre outras. Tal ajuda será importante para se estabelecer na cidade.

 

“Foi uma segurança pra mim e por acreditar que posso desenvolver esse trabalho voltado mais para a arte de luthieria”, conta.

 

Há dez dias em Parintins, para o novo desafio em sua carreira profissional, Artur conta com a ajuda do irmão Mateus Seixas, 21, e do pai, Artur José da Silva Marques, 65, que considera a peça importante para entrar na arte da luthieria. Artur José veio para dar apoio na instalação da oficina, na Avenida Geny Bentes, em frente à escola estadual Dom Gino Malvestio.

 

Outro projeto será poder compartilhar seu conhecimento com pessoas que tenham vocação para a música e também como fabricante de instrumentos sonoros, que pode ser em parceria com as instituições como os Bumbás e até mesmo com o Liceu de Artes e Ofícios Cláudio Santoro, que desde sua criação, em 2013, tem formado diversos talentos.

 

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